Espiritualidade e TEPT

By 14 de agosto de 2026 TEPT

Espiritualidade e TEPT

Por Marcus Ribeiro

Existe uma intuição comum de que a fé protege quem passou por um trauma. A pesquisa científica é mais cautelosa do que essa intuição. Quando se olha o conjunto dos estudos, o efeito da espiritualidade sobre sintomas depressivos e ansiosos é real, mas especificamente sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, a evidência é surpreendentemente escassa. Em uma revisão recente com dezenas de estudos longitudinais em jovens, apenas um investigou TEPT. Não é que a espiritualidade não importe. É que ainda sabemos muito pouco sobre como ela opera exatamente aqui.

O que a literatura mostra com mais consistência é algo que raramente se comenta: a espiritualidade tem dois polos. Ao lado do enfrentamento religioso positivo, buscar conforto, sentido, comunidade, existe o enfrentamento negativo: a sensação de punição divina, a culpa, a impressão de ter sido abandonado por Deus. Esse segundo polo prediz sofrimento de forma mais estável do que o primeiro prediz alívio. Em veteranos com TEPT, dificuldades com enfrentamento religioso negativo associaram-se a maior risco de suicídio, independentemente da gravidade dos sintomas. E os dois polos convivem: a mesma pessoa pode rezar todos os dias e, ao mesmo tempo, acreditar que merece o que sofreu.

Há ainda um dado que me parece o mais importante para quem cuida. Quando o dano vem da própria comunidade religiosa, ele costuma vir primeiro, e é ele que abre caminho para a ruptura na relação com o sagrado e para a autocondenação que vem depois. Ou seja, o adoecimento espiritual frequentemente começa no vínculo. Por isso, na clínica, perguntar importa mais do que supor. Saber que alguém tem fé diz muito pouco. Saber como essa pessoa se sente diante daquilo em que acredita, se encontra amparo ou julgamento,diz quase tudo.

 

Referências:
Aggarwal et al. (BMC Psychiatry, 2023); Exline et al. (2014); Pargament & Exline (Guilford, 2021).

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