Violência de Gênero e Poder Econômico
Por Flavia Strumpf
Na última semana fomos impactados mais uma vez por outra notícia de violência doméstica. Dessa vez, entretanto, o perfil parecia ser um pouco diferente: ele tinha diploma, morava nos Jardins e era um executivo da Faria Lima. Alto poder aquisitivo, diploma universitário e posições de prestígio não anulam nem previnem a violência.
Esse caso nos ilustra, mais uma vez, sobre como violência de gênero não é exclusiva de camadas socioeconômicas mais vulneráveis, como comumente é pensado. Tratar a violência doméstica como um problema exclusivo de populações vulneráveis é uma ilusão perigosa e até certo nível preconceituosa.
O patriarcado é o sistema que hierarquiza homens e mulheres, dando ao homem a falsa sensação de domínio, poder e direito de posse. O machismo estrutural é a engrenagem que valida e reproduz essa desigualdade em qualquer ambiente — da comunidade periférica à mansão. E a violência de gênero é um dos recursos de manutenção e reprodução do patriarcado e machismo estrutural.
É claro que não podemos também invisibilizar como dados como raça, classe e escolaridade influenciam na vulnerabilidade frente à violência. Dados do Atlas da Violência mostram que mulheres negras são quase 70% das vítimas de feminicídio no Brasil e constituem a maioria absoluta das vítimas de agressões físicas e psicológicas. Mas a violência de gênero não é exclusiva desses recortes.
O dinheiro pode mudar a forma como o abuso se desenha — muitas vezes agregando a violência patrimonial, mais camadas de poder e intimidação —, mas a dor e a ameaça à vida das vítimas continuam sendo igualmente impactantes e nocivas.
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