A vergonha precisa mudar de lado

By 23 de março de 2026 TEPT

A vergonha precisa mudar de lado

Por Cecilia Zylberstajn

O recente caso de violência coletiva contra uma jovem de 17 anos e o lançamento do livro de Gisèle Pelicot no Brasil nos convocam a uma reflexão profunda: por que o peso do silêncio ainda recai sobre quem sofre a violência? Ambas as histórias, embora distantes geograficamente, convergem no ato revolucionário de denunciar.

Assim como Gisèle exigiu que o julgamento de seus agressores fosse público, a coragem da mãe da jovem brasileira ao expor o crime força os perpetradores a saírem das sombras. Como diz o título de Pelicot, é imperativo que “a vergonha mude de lado”.

A vergonha é um dos sentimentos mais persistentes e paralisantes em sobreviventes de violência sexual, muitas vezes alimentada por um sistema que questiona o comportamento da vítima em vez de punir o agressor. Quando sobreviventes e suas redes de apoio decidem falar, elas rompem com esse ciclo de isolamento e devolvem a culpa a quem de fato a pertence. Denunciar e “mostrar a cara” dos culpados não é apenas um ato de busca por justiça individual, mas um passo essencial para retirar o estigma que historicamente silencia mulheres e adolescentes.

Enquanto sociedade e rede de cuidado, nosso papel é garantir que o acolhimento substitua o julgamento. Precisamos quebrar o tabu que cerca o tema e construir um ambiente onde a condenação social seja dirigida exclusivamente aos agressores. No Prove Unifesp, acreditamos que a escuta ética e o apoio psicossocial são ferramentas fundamentais para que o trauma não seja vivido na sombra. Que a coragem dessas mulheres inspire um compromisso coletivo: o de nunca mais permitir que a vítima carregue o peso de um crime que ela não cometeu.

 

 

Imagem: Pexels
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