AMAZÔNIA: RESPONSABILIDADE E CULPA

By 23 de junho de 2022 TEPT

AMAZÔNIA: RESPONSABILIDADE E CULPA

Por José Paulo Fiks

Logo após o término da Segunda Guerra Mundial o psiquiatra e filósofo Karl Jaspers se transformou em uma celebridade alemã ao explicar para o grande público suas reflexões sobre a adesão de boa parte do povo alemão ao nazismo. Jaspers sabia do que falava: ele foi obrigado a se esconder para sobreviver ao extermínio como esposo de uma judia. Seu livro sobre essas ponderações A questão da culpa: a Alemanha e o nazismo foi recentemente traduzido no Brasil (Ed Todavia).

Os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, ainda em investigação configuram um ato bárbaro segundo a proposta da filósofa alemã Hannah Arendt, que como amiga e interlocutora de Jaspers iluminaram o campo das definições para eventos de violência como base para o trauma psíquico. Para Arendt a barbárie indica a vontade do extermínio que desconsidera os valores humanos mínimos. Para o bárbaro não interessa o outro.

Jaspers diferenciava os conceitos de culpa e responsabilidade especialmente para situações em que o aniquilamento está envolvido. Para o filósofo a culpa é uma questão individual, subjetiva e decorrente da história individual e do funcionamento psíquico de cada um. A responsabilidade seria do coletivo, implicando uma ação política. Jaspers não acreditava na culpa coletiva. Para ele todo o povo alemão deveria reconhecer sua cumplicidade com o Holocausto, acreditando em uma reabilitação deste através do reconhecimento dessa responsabilidade.

A barbárie em andamento na Amazônia nos obriga à mesma ponderação. Como cidadãos – brasileiros e do planeta – uma tomada de posição se impõe:  culpa ou responsabilidade? Ou as duas alternativas?